O novo blog, continuação do anterior.

Devido à grande quantidade de informação existente no nosso blog inicial, tivemos que criar este segundo. Fica encerrado o primeiro blog no que toca a novas mensagens, embora seja possivel continuar a fazer comentários, que procuraremos, sempre que possivel, transferrir para este novo blog. Esperamos continuar a contar com a simpatia e colaboração dos nossos companheiros, amigos e visitantes, com os seus comentários e escritos preciosos.

O endereço deste novo blog é:
http://bart1914parte2.blogspot.com/

Podem continuar a visitar o anterior blog que tem o endereço:
http://bart1914.blogspot.com/

o email de serviço passa a ser unicamente o seguinte:
bart1914@gmail.com

Os objectivos deste blog continuam a ser os mesmos do primeiro, ou seja, a amizade, a união, reencontro e camaradagem entre os companheiros que viveram 23 meses de guerra colonial, em Tite, na Guiné-Bissau.


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segunda-feira, 28 de março de 2011



Companheiro,

Vamos dar “corda” ao nosso BLOG?!

Se estiveres de acordo, eu continuo com Fernando Pessoa.

Mesmo em tempo de crise é possível presentear os meus Amigos com uma PRECIOSIDADE, que no meu entender, considero uma maravilha ...

O Menino Jesus, nas palavras de Alberto Caeiro, pela voz única, grave e ternamente sentida de Maria Bethânia.

Espero que gostem………………………………………..de POESIA e de Maria Bethânia!!

Um abraço,

Cavaleiro

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 Alberto Caeiro - Poema do Menino Jesus





Num meio-dia de fim de primavera

Eu tive um sonho como uma fotografia

Eu vi Jesus Cristo voltar à terra.

Veio pela encosta de um monte.

E era a eterna criança, o Deus que faltava.

Tornando-se outra vez menino,

A correr e a rolar pela relva

E a arrancar flores para deitar fora.

E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.

Era nosso demais para fingir de segunda pessoa da Trindade.

Um dia, que Deus estava dormindo

e que o Espírito Santo andava a voar

Ele foi até a caixa dos milagres e roubou três.

Com o primeiro, ele fez com que ninguém soubesse que ele tinha fugido.

Com o segundo, ele criou-se eternamente humano e menino.

E com o terceiro ele criou um Cristo

e o deixou pregado numa cruz que serve de modelo às outras.

Depois ele fugiu para o sol

e desceu pelo primeiro raio que apanhou.

Hoje ele vive comigo na minha aldeia

e mora na minha casa em meio ao outeiro.

É uma criança bonita, de riso e natural.

Atira pedra aos burros.

Rouba a fruta dos pomares.

E foge a chorar e a gritar com os cães.

Nem sequer o deixaram ter pai e mãe

como as outras crianças.

Seu pai eram duas pessoas: um velho carpinteiro

e uma pomba estúpida, a única pomba feia do mundo.

E sua mãe não tinha amado antes de o ter.

Não era mulher, era uma mala

em que ele tinha vindo do céu.

E queriam que justamente ele pregasse o amor e a justiça.

Ele é apenas humano,

limpa o nariz com o braço direito,

chapina as possas d'água;

colhe as flores, gosta delas,

esquece-as.

E porque sabe que elas não gostam

e que toda a gente acha graça,

ele corre atrás das raparigas

que carregam as bilhas na cabeça e levanta-lhes as saias.

A mim, ele me ensinou tudo.

Ensinou-me a olhar para as coisas.

Aponta-me todas as belezas que há nas flores.

E mostra-me como as pedras são engraçadas

quando a gente as tem nas mãos e olha devagar para elas.

Ensinou-me a gostar dos reis e dos que não são reis.

E tem pena de ouvir falar das guerras e dos comércios.

Diz-me muito mal de Deus.

Diz que ele é um velho estúpido e doente.

Sempre a escarrar no chão e a dizer indecências.

E que a Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meias.

E o Espírito Santo coça-se com o bico;

empoleira nas cadeiras e suja-as.

Tudo no céu é tão estúpido como nas Igrejas.

Diz-me que Deus não percebe nada das coisas

que criou - do que duvido.

"Ele diz por exemplo que os seres cantam sua glória.

Mas os seres não cantam nada

se cantassem, seriam cantores.

Eles apenas existem e por isso são seres..."

Ele é o humano que é o natural.

Ele é o divino que sorri e que brinca.

E é por isso que eu sei com toda certeza que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E depois, cansado de dizer mal de Deus

ele adormece nos meus braços.

E eu o levo ao colo para minha casa.

Damo-nos tão bem na companhia de tudo

que nunca pensamos um no outro.

Mas vivemos juntos os dois

com um acordo íntimo,

como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer, nós brincamos nas cinco pedrinhas do degrau da porta de casa.

Graves, como convêm a um deus e a um poeta.

É como se cada pedra fosse um universo

e fosse por isso um grande perigo deixá-la cair no chão.

Depois ele adormece.

E eu o deito na minha cama despindo-o lentamente

seguindo um ritual muito limpo, humano e materno até ele ficar nu.

E ele dorme dentro da minha alma.

Às vezes ele acorda de noite e brinca com os meus sonhos.

Vira uns de perna para o ar.

Põe uns encima dos outros.

E bate palmas sozinho sorrindo para o meu sono.

Quando eu morrer, filhinho, seja eu a criança, o mais pequeno.

Pega-me tu ao colo.

E leva-me para dentro da tua casa.

E deita-me na tua cama.

E conta-me histórias, caso eu acorde, para eu tornar a adormecer.

E dá-me os sonhos teus para eu brincar...



(Alberto Caeiro)

1 comentário:

  1. Maria Bethânia !!!....
    Uma voz única, que chega a qualquer ouvido como uma mensagem de paz, de tranquilidade, de conforto, quer seja a cantar ou a declamar...
    Muito bonito este poema.

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